João Carlos Mansur apresentou documentos à Procuradoria-Geral da República sobre operações envolvendo a Reag e o Banco Master.
O empresário João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente do conselho da Reag Investimentos, apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de colaboração premiada que pode ampliar as investigações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material inclui documentos sobre operações financeiras e movimentações realizadas por meio de fundos ligados à Reag, mas o acordo ainda não foi formalmente aprovado.
Proposta reúne documentos sobre operações financeiras
A defesa de Mansur entregou à PGR uma proposta acompanhada de 17 anexos. O material busca apresentar aos investigadores informações sobre operações financeiras realizadas por meio de diferentes estruturas de investimento e explicar a participação de empresas e fundos nesse processo.
Entre as condições negociadas está o pagamento de aproximadamente R$ 40 milhões em multas. O valor está relacionado aos recursos que Mansur teria recebido da Reag durante o período em que esteve à frente da empresa.
Segundo as informações apresentadas à Procuradoria, a Reag manteve relações comerciais com o Banco Master desde 2019. A colaboração pretende esclarecer como essas relações funcionavam e quais operações passaram pelas estruturas administradas pela empresa.
A proposta ainda está em fase de negociação. Portanto, as informações apresentadas por Mansur precisam ser verificadas pelas autoridades e não representam, por si só, comprovação das suspeitas investigadas.
Daniel Vorcaro aparece entre os principais alvos
O nome de Daniel Vorcaro ocupa posição central no conteúdo apresentado pelo empresário. Mansur pretende fornecer informações sobre negociações e operações que teriam envolvido diretamente o ex-controlador do Banco Master.
A possível colaboração ganhou relevância justamente pela quantidade de documentos apresentados e pela possibilidade de os investigadores utilizarem esse material para comparar os relatos com registros financeiros, contratos e outras evidências já reunidas no caso.
Mansur e Vorcaro chegaram anteriormente a discutir uma possível colaboração conjunta quando compartilhavam a mesma defesa. A iniciativa não avançou e, posteriormente, Mansur passou a negociar individualmente com as autoridades.
Caso a PGR aceite os termos, a colaboração ainda precisará ser submetida à análise judicial antes de produzir efeitos jurídicos.
Investigadores analisam circulação de recursos entre fundos
Uma das linhas investigadas envolve a utilização de empresas, empréstimos, fundos de investimento e ativos financeiros em operações consideradas suspeitas.
As apurações procuram entender se recursos disponibilizados pelo Banco Master teriam passado por empresas e fundos antes de serem direcionados para outras operações financeiras.
Também está sob análise a possibilidade de determinados ativos terem sido registrados por valores superiores ao que poderiam efetivamente representar em termos econômicos. Essa hipótese é importante porque uma superavaliação pode alterar a percepção sobre o patrimônio de uma instituição ou de um fundo.
Um dos exemplos investigados envolve o fundo High Tower e uma carteira de créditos relacionada ao antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Segundo os dados reunidos no caso, uma carteira estimada em aproximadamente R$ 850 milhões teria sido registrada por cerca de R$ 10 bilhões.
O valor é tratado como parte da investigação sobre possíveis distorções na avaliação de ativos. A confirmação dessa hipótese, entretanto, depende da análise das autoridades e das provas reunidas no processo.
Fundos ligados à Reag entram no foco da investigação
A dimensão das estruturas financeiras envolvidas também chama atenção. Seis fundos relacionados à Reag chegaram a apresentar patrimônio informado de aproximadamente R$ 102,4 bilhões.
Esse valor representa o patrimônio declarado pelos fundos e não significa que todo esse montante esteja relacionado a irregularidades. A cifra ajuda, porém, a dimensionar o tamanho das estruturas financeiras que estão sendo examinadas pelos investigadores.
Parte das operações sob suspeita teria ocorrido entre 2023 e 2024. Nesse período, as autoridades passaram a analisar com maior atenção transações envolvendo o Banco Master e diferentes veículos de investimento.
A investigação busca identificar a origem dos recursos, o destino final dos valores e os eventuais beneficiários efetivos das operações.
Fundo nas Ilhas Cayman movimentou R$ 494 milhões
Entre os documentos apresentados por Mansur está a referência ao Jaguar Multimarket Fund Ltd, registrado nas Ilhas Cayman.
De acordo com as informações da proposta, aproximadamente R$ 494 milhões provenientes do Banco Master teriam sido direcionados ao fundo. O beneficiário formal indicado seria Benjamim Botelho, empresário ligado ao mercado financeiro e ex-controlador da Sefer.
Mansur sustenta, entretanto, que Daniel Vorcaro seria o beneficiário efetivo da estrutura. Essa diferença entre quem aparece oficialmente como titular e quem seria o verdadeiro beneficiário é um dos pontos que podem ser aprofundados caso a colaboração seja aceita.
A identificação do beneficiário efetivo é relevante para as investigações financeiras porque permite compreender quem teria, de fato, controle ou vantagem econômica sobre determinada operação.
Mansur também aparece em outras investigações
As apurações envolvendo o empresário não se limitam ao caso Banco Master. A Reag também foi relacionada à Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis vínculos entre organizações criminosas, empresas do setor de combustíveis e estruturas financeiras.
Fundos administrados pela empresa foram mencionados nas investigações relacionadas a operações atribuídas a integrantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Reag também apareceu no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que envolve operações relacionadas ao Banco Master.
Em janeiro de 2026, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Reag. A medida ocorreu em meio a questões relacionadas à situação econômico-financeira da instituição e ao cumprimento das regras aplicáveis ao mercado.
Mansur também mantém negociações com o Ministério Público de São Paulo relacionadas às apurações da Operação Carbono Oculto.
Proposta menciona nomes da política
Embora Vorcaro seja apontado como um dos principais focos do material, a proposta apresentada à PGR também faz referência a políticos.
Entre os nomes citados estão o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil).
No caso de Jaques Wagner, o documento relata uma situação envolvendo ingressos para um show da cantora Taylor Swift realizado em São Paulo, em 2023. Segundo o relato apresentado por Mansur, Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, teria pedido que os ingressos fossem providenciados.
O valor mencionado para os bilhetes é de aproximadamente R$ 63,3 mil. Wagner afirmou que a aquisição ocorreu a partir de um pedido pessoal feito a um amigo e negou conhecer Mansur ou possuir relação com a Reag.
A menção ao episódio na proposta não significa que Wagner seja acusado de irregularidade pela simples presença de seu nome no documento.
ACM Neto é citado em operação envolvendo fundo
ACM Neto aparece em outro trecho da proposta, relacionado a investimentos financeiros.
Segundo o material, o político era proprietário do fundo Seattle 95, administrado pela Reag. A estrutura teria destinado aproximadamente R$ 4,8 milhões ao fundo Structure, relacionado a operações de crédito consignado originadas pelo Banco Master.
Os documentos também apontam aportes de aproximadamente R$ 7,92 milhões realizados por ACM Neto no Seattle 95. Em determinado momento, o patrimônio do fundo teria chegado a cerca de R$ 11,94 milhões.
Neto declarou que os recursos eram próprios, tinham origem lícita e haviam sido devidamente declarados. Também afirmou que a contratação da Reag ocorreu dentro das normas aplicáveis ao mercado financeiro.
PGR ainda precisa avaliar a colaboração
A proposta entregue por Mansur não equivale a uma delação premiada já homologada. A primeira etapa será a avaliação dos termos pela Procuradoria-Geral da República.
Se houver acordo entre Mansur e a PGR, o documento deverá seguir para análise do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
A homologação judicial é uma etapa necessária para validar o acordo dentro dos parâmetros legais. Além disso, as declarações apresentadas pelo colaborador precisam ser confrontadas com outras provas.
Esse procedimento é fundamental porque informações fornecidas em uma colaboração não são suficientes, isoladamente, para comprovar a responsabilidade de terceiros. Documentos, registros financeiros e outros elementos precisam confirmar os relatos.
Próximo passo é rastrear recursos e beneficiários
Um dos possíveis efeitos da colaboração será ajudar os investigadores a reconstruir o caminho percorrido pelos recursos.
Informações sobre empresas, fundos, intermediários e beneficiários podem permitir que as autoridades comparem os relatos de Mansur com documentos já obtidos durante as investigações.
Esse rastreamento é particularmente importante em operações que utilizam várias estruturas financeiras. Quando o dinheiro passa por diferentes empresas e fundos, identificar o destinatário final pode exigir o cruzamento de contratos, registros bancários e dados sobre os verdadeiros beneficiários.
Caso os documentos apresentados sejam confirmados, o material poderá contribuir para esclarecer a estrutura das operações investigadas e identificar eventuais responsabilidades.
Conclusão:
A proposta de colaboração apresentada por João Carlos Mansur pode acrescentar novas informações às investigações sobre o Banco Master e colocar Daniel Vorcaro ainda mais no centro das apurações. O empresário entregou documentos e relatos à PGR, mas o acordo ainda depende de negociação, aprovação e eventual homologação judicial.
O ponto decisivo agora será a capacidade das autoridades de confirmar as informações apresentadas por Mansur por meio de outras provas. Até que esse processo avance, os relatos devem ser tratados como informações sob investigação, e não como conclusões definitivas sobre os envolvidos.
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