Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular da empresária Roberta Luchsinger levaram investigadores a analisar pagamentos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, servidores públicos e empresários. Os registros fazem parte de investigações que apuram possíveis relações financeiras e de influência envolvendo pessoas próximas ao governo federal.
PF analisa pagamentos envolvendo servidores públicos
Entre os materiais encontrados no aparelho de Roberta Luchsinger estão conversas de 2023 com Ulisses Barbosa, apontado nas investigações como operador financeiro. Nos diálogos, a empresária teria orientado o responsável a retirar dinheiro e realizar pagamentos determinados por ela.
Em uma das conversas, Roberta menciona R$ 60 mil que estariam armazenados em uma sacola e pede que o valor seja retirado. Ulisses demonstra preocupação com a movimentação e fala sobre a necessidade de distribuir os depósitos para evitar questionamentos relacionados às operações bancárias.
Os investigadores posteriormente identificaram transferências destinadas a Ranniêr Costa Ciríaco, que ocupava o cargo de secretário-executivo adjunto do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, e a José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial da mesma pasta.
Segundo os elementos reunidos pela investigação, os comprovantes das transferências teriam sido enviados posteriormente pelo operador a Roberta. A PF também procura identificar se houve outras movimentações semelhantes.
Contratos do governo entram no radar da investigação
Os pagamentos passaram a ser analisados em conjunto com contratos firmados posteriormente por empresas relacionadas ao empresário Cleber Ribas de Oliveira.
No fim de 2023, a empresa 3Structure IT celebrou um contrato de aproximadamente R$ 31,2 milhões com o Ministério do Desenvolvimento Social. A contratação ocorreu por meio de pregão eletrônico.
Em abril de 2026, a mesma empresa firmou outro acordo com o ministério, desta vez no valor de R$ 19,2 milhões e com previsão de vigência até 2031. A companhia atua em áreas como tecnologia, segurança cibernética e proteção de dados.
A proximidade entre os pagamentos identificados nas mensagens e os contratos fez com que os episódios fossem incluídos na análise dos investigadores. Isso, contudo, não significa que a PF tenha concluído que as transferências representem, por si mesmas, favorecimento ou irregularidade na contratação.
O Ministério do Desenvolvimento Social afirmou que os contratos seguiram o procedimento de pregão eletrônico e sustentou que os dois servidores mencionados nas conversas não tinham responsabilidade sobre o setor encarregado da licitação.
A defesa de Cleber Ribas também declarou que ele e a empresa não tinham conhecimento dos pagamentos citados nas mensagens e afirmou que os contratos passaram pelos procedimentos técnicos e administrativos previstos.
Conversas com Lulinha também são investigadas
O conteúdo extraído do celular inclui ainda diálogos entre Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva.
Em uma conversa de julho de 2023, Lulinha teria solicitado à empresária a emissão de uma nota fiscal para uma cobrança relacionada a Cleber Ribas. Roberta respondeu que o documento já havia sido preparado.
Outras mensagens chamaram a atenção dos investigadores por tratarem de movimentações financeiras e pagamentos relacionados a Fábio Luís. Em novembro de 2024, por exemplo, Roberta orientou Ulisses a entregar dinheiro a Fábio.
Também aparece nas conversas uma determinação envolvendo o pagamento de R$ 26.809 a uma empresa ligada à organização de viagens. Há ainda referências a despesas e deslocamentos que teriam relação com viagens realizadas por Lulinha e Roberta.
Os investigadores analisam esses registros em conjunto com outros documentos para tentar entender a natureza das relações financeiras mencionadas nas conversas.
Defesa de Lulinha contesta interpretação das mensagens
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva questiona a interpretação atribuída aos diálogos encontrados pela Polícia Federal.
Os advogados afirmam que as mensagens precisam ser consideradas dentro de seu contexto completo e sustentam que os registros não comprovam que Lulinha tenha participado de qualquer irregularidade.
A defesa também contesta a associação dos valores mencionados nas conversas a despesas pessoais de Fábio Luís e afirma que os esclarecimentos necessários serão apresentados durante o andamento das investigações.
Esse posicionamento é relevante porque a existência de uma mensagem ou de uma transferência financeira não estabelece, isoladamente, a prática de um crime. Cabe à investigação reunir outros elementos capazes de esclarecer a finalidade e a origem das movimentações.
Investigação se conecta à Operação Sem Desconto
Roberta Luchsinger também aparece em apurações relacionadas à Operação Sem Desconto, que investiga descontos considerados indevidos aplicados sobre benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A partir dessas investigações, a Polícia Federal passou a examinar possíveis relações entre empresários, intermediários e pessoas com acesso a integrantes do governo.
Roberta também é relacionada a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado nas investigações como um dos personagens envolvidos no esquema de descontos sobre benefícios previdenciários.
Segundo informações reunidas pela PF, uma empresa ligada a Antunes teria transferido aproximadamente R$ 1,5 milhão para uma empresa relacionada a Roberta.
A ligação entre esses episódios ampliou o interesse dos investigadores sobre as relações financeiras e empresariais envolvendo a empresária.
O que os investigadores ainda precisam esclarecer
A análise das mensagens não ocorre de forma isolada. A Polícia Federal cruza os diálogos com informações bancárias, contratos públicos, transferências, viagens e vínculos empresariais para identificar a finalidade de cada operação.
Um dos objetivos é determinar quem recebeu os valores mencionados nas conversas, por qual motivo os pagamentos foram realizados e se existia alguma relação entre essas movimentações e interesses privados junto a órgãos públicos.
Os investigadores também precisam verificar se houve eventual contrapartida relacionada aos contratos ou se as operações tinham justificativas comerciais legítimas.
Até que essas etapas sejam concluídas, os registros encontrados no celular e as transferências identificadas permanecem como elementos de investigação. A confirmação de eventual responsabilidade depende da análise conjunta das provas e das conclusões das autoridades responsáveis pelo caso.
Conclusão:
As mensagens recuperadas pela Polícia Federal abriram novas frentes de apuração sobre pagamentos envolvendo Lulinha, servidores públicos, empresários e pessoas relacionadas às investigações sobre descontos no INSS. Os investigadores agora cruzam os registros financeiros e os contratos públicos para tentar estabelecer a finalidade das movimentações.
O caso continua em investigação no Supremo Tribunal Federal, e os envolvidos podem apresentar suas versões e contestações durante o processo. Até a conclusão das apurações, os pagamentos e diálogos identificados não devem ser tratados isoladamente como comprovação de crime ou favorecimento.
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