A Braskem aprovou o início de um processo de recuperação extrajudicial para reorganizar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, equivalentes a aproximadamente R$ 56 bilhões. A decisão ocorre após o encerramento de uma proteção temporária contra credores e meses de negociações para tentar reorganizar as contas da petroquímica.
Braskem inicia nova etapa para reorganizar as dívidas
O Conselho de Administração da Braskem aprovou nesta segunda-feira (24) o pedido de recuperação extrajudicial. A empresa agora deverá preparar e apresentar à Justiça a documentação necessária para formalizar o processo.
A medida tem como objetivo criar uma estrutura jurídica para negociar as condições de pagamento com os credores financeiros. O processo envolve principalmente dívidas sem uma garantia específica vinculada aos créditos, chamadas de obrigações quirografárias.
A companhia informou que a recuperação terá foco financeiro. Contratos e compromissos relacionados a fornecedores, clientes e demais parceiros operacionais não estão incluídos na reestruturação e, segundo a empresa, continuam sendo cumpridos normalmente.
Endividamento elevado se agravou com cenário adverso
A situação financeira da Braskem se deteriorou em um momento de pressão sobre o setor petroquímico internacional. O mercado enfrenta excesso de capacidade produtiva, concorrência elevada e margens menores, enquanto a demanda permanece insuficiente para sustentar resultados mais fortes.
A expansão da produção chinesa também aumentou a competição internacional. Segundo estimativas da XP Investimentos apresentadas nas informações que embasam esta matéria, os spreads das resinas produzidas no Brasil permanecem abaixo dos níveis históricos, dificultando a recuperação das margens da companhia.
Ao mesmo tempo, o custo financeiro permaneceu elevado. A XP estima que as despesas anuais com juros da Braskem estejam entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões. A combinação entre menor geração de caixa e compromissos financeiros elevados aumentou a pressão sobre a empresa.
Dívida chega a aproximadamente R$ 56 bilhões
O principal desafio da reestruturação está no tamanho do passivo financeiro. O montante envolvido no processo é estimado em US$ 10,9 bilhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 56 bilhões na conversão considerada nas informações divulgadas pela companhia.
Grande parte desse endividamento está em moeda estrangeira, acrescentando exposição às condições do mercado internacional e às variações cambiais.
O custo do dinheiro no Brasil também contribuiu para aumentar a pressão financeira. A taxa Selic, que estava em 2% em 2020, chegou a 15% em março de 2026, tornando mais caro o financiamento para empresas com elevado nível de dívida.
Proteção contra credores chegou ao fim
Antes de optar pela recuperação extrajudicial, a Braskem havia obtido uma medida de proteção na Justiça de São Paulo.
Em junho, uma tutela cautelar suspendeu temporariamente determinadas cobranças e medidas adotadas por credores financeiros. O objetivo era conceder à empresa tempo adicional para negociar uma solução para o passivo.
Essa proteção tinha duração de 60 dias e terminou nesta segunda-feira (24), quando ainda não havia sido alcançado um acordo definitivo com todos os credores.
Com o fim desse período, a aprovação da recuperação extrajudicial representa uma nova tentativa de organizar as dívidas por meio de um acordo estruturado e submetido à avaliação judicial.
Credores e empresa ainda precisam chegar a um acordo
As negociações realizadas antes do pedido envolveram diferentes alternativas para tentar equilibrar as necessidades financeiras da Braskem e as exigências dos credores.
Entre as propostas discutidas esteve a possibilidade de oferecer ativos como garantia e contratar um novo financiamento de US$ 700 milhões. A empresa, porém, não aceitou esse novo empréstimo.
Outra alternativa apresentada pela IG4, uma das controladoras da companhia, prevê a extensão das atuais linhas de crédito por cinco anos e um intervalo de 30 meses sem pagamento de juros.
Nesse formato, a proposta não prevê redução do valor principal das dívidas nem conversão dos créditos bancários em participação acionária. O modelo definitivo ainda dependerá das negociações e da adesão dos credores envolvidos.
Para que o plano avance para homologação judicial, a estrutura apresentada nas informações da XP prevê a necessidade de apoio de mais de 50% dos credores abrangidos.
Passivo de Maceió aumenta a pressão financeira
Além dos problemas provocados pelo ciclo desfavorável da indústria petroquímica, a Braskem enfrenta compromissos relacionados ao desastre geológico em Maceió, Alagoas.
O caso está ligado à exploração de sal-gema e provocou o deslocamento de moradores e a interdição de imóveis em diferentes regiões da cidade.
Segundo dados compilados pela XP Investimentos, as provisões acumuladas relacionadas ao episódio alcançavam R$ 15,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026. O valor inclui despesas relacionadas a indenizações, realocações, fechamento e acompanhamento de cavidades e outras medidas decorrentes do caso.
O programa de compensação também continuava em andamento. Até março de 2026, mais de 19 mil propostas haviam sido apresentadas e mais de 19 mil pagamentos tinham sido realizados, de acordo com os dados utilizados na análise.
Problemas do grupo também alcançam o México
A situação financeira do grupo ganhou outra camada de complexidade com a Braskem Idesa, operação conjunta da companhia no México.
A empresa mexicana recorreu ao Chapter 11 nos Estados Unidos, mecanismo jurídico utilizado por empresas para reorganizar suas finanças sob proteção judicial.
O processo ocorre paralelamente à tentativa de reorganização da dívida da Braskem no Brasil. Para credores e investidores, isso amplia a quantidade de fatores que precisam ser considerados na avaliação da situação financeira do grupo.
Agiram avaliação da compaências de risco reduznhia
A deterioração das condições financeiras também teve reflexos nas classificações atribuídas à Braskem pelas agências de risco.
Em junho, Fitch e S&P Global reduziram a avaliação da empresa para níveis associados a um risco elevado de inadimplência. Em agosto, a Moody’s também rebaixou a classificação da companhia, passando de Caa3 para Ca.
Os movimentos ocorreram em um período marcado por pressão sobre o caixa, dificuldades no setor petroquímico e negociações para reorganizar o endividamento.
Para o mercado, a combinação entre dívida elevada, custos financeiros, geração de caixa pressionada e condições adversas na indústria aumentou o risco associado à companhia.
Estrutura de controle também mudou
A crise financeira ocorreu paralelamente a mudanças na composição societária da Braskem.
A IG4 aumentou sua influência após adquirir aproximadamente R$ 20 bilhões em créditos que estavam nas mãos de bancos e tinham ações da petroquímica como garantia. Posteriormente, essa posição credora foi transformada em participação societária.
Com a operação, a IG4 passou a ocupar espaço relevante na estrutura de controle da companhia. A Novonor perdeu influência na governança, enquanto a Petrobras manteve sua participação acionária.
A mudança ocorre justamente quando a Braskem busca reorganizar sua estrutura de capital e encontrar uma saída para o elevado nível de endividamento.
Recuperação extrajudicial não interrompe as operações
O pedido não significa que a Braskem esteja encerrando suas atividades ou paralisando a produção.
A companhia afirma que suas operações continuam normalmente e que compromissos com fornecedores, clientes e outros parceiros não estão incluídos na recuperação extrajudicial.
O mecanismo permite que a empresa negocie diretamente uma reorganização das dívidas com os credores abrangidos. Depois, o acordo precisa seguir os procedimentos judiciais previstos para que possa produzir seus efeitos.
Caso não seja possível obter adesão suficiente ou construir um plano considerado viável, a situação financeira poderá se tornar ainda mais complexa, inclusive com a possibilidade de uma recuperação judicial.
Próximos passos definem o futuro financeiro
Com a decisão do Conselho de Administração, a Braskem passa agora à fase de formalização do pedido. A empresa deverá protocolar os documentos na Justiça e apresentar a estrutura da reestruturação aos credores envolvidos.
A partir daí, serão discutidos os termos do acordo, os créditos abrangidos e as condições para reorganizar o passivo. O período seguinte será decisivo para determinar se a companhia conseguirá reunir apoio suficiente para homologar o plano.
A expectativa apresentada nas informações da XP é de que a empresa tenha até 90 dias para avançar na apresentação e negociação da proposta
Conclusão:
A recuperação extrajudicial coloca a Braskem diante de uma tentativa decisiva de reorganizar uma dívida de aproximadamente R$ 56 bilhões sem interromper suas operações. O resultado dependerá principalmente da capacidade de construir um acordo aceitável para os credores e preservar recursos suficientes para manter a atividade da companhia.
O cenário ainda é de elevada pressão financeira, agravada pelas dificuldades do setor petroquímico, pelos compromissos relacionados a Maceió e pelo custo do endividamento. Os próximos meses deverão mostrar se a negociação será suficiente para devolver maior equilíbrio à estrutura financeira da empresa.
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